U1.T1 — Notação indicial e álgebra tensorial

MAE369 — Mecânica e Fenômenos de Transporte · IM/UFRJ · 2026/2

01Abertura do curso

Organização da disciplina

Encontros Segundas e quartas, 10h–12h
Avaliação P1 e P2 (30% cada) · quatro listas (5% cada) · mini-projeto (20%)
Ferramentas Python e NumPy, com implementação própria dos métodos numéricos; FEniCSx apenas na Unidade 9, como implementação de referência
Datas no calendário publicado na página da disciplina

O método central do curso

Figura 1

As leis de balanço da mecânica do contínuo são obtidas por um único método, aplicado repetidamente. As duas primeiras unidades constroem a linguagem matemática que esse método exige.

A questão que organiza esta unidade

Por que a mecânica do contínuo precisa de todo esse formalismo tensorial?

A resposta não é dada nesta unidade. Ela aparece em U3.T1, quando o Teorema do Transporte converter balanços integrais em equações diferenciais.

02A convenção de soma

A convenção de soma

\[\begin{aligned} &s = a_i b_i = a_1b_1 + a_2b_2 + a_3b_3 && \text{(indicial)}\\[4pt] &s = \mathbf{a}\cdot\mathbf{b} = \mathbf{a}^{\mathsf T}\mathbf{b} && \text{(direta)} \end{aligned}\]

Um índice repetido em um monômio indica soma sobre \(\{1,2,3\}\). Índices latinos \(i, j, k, m, n\) percorrem sempre esse conjunto (Lai, Rubin, e Krempl 2010).

A letra escolhida para um índice somado é arbitrária: \(a_ib_i\) e \(a_mb_m\) denotam o mesmo número.

A letra do índice é arbitrária

Índices livres e índices mudos

Figura 2

Correspondência entre as duas notações

indicial direta / matricial
\(a_i b_i\) \(\mathbf{a}\cdot\mathbf{b}\)
\(T_{ij} v_j\) \(\mathbf{T}\mathbf{v}\)
\(A_{ij} B_{jk} = C_{ik}\) \(\mathbf{A}\mathbf{B} = \mathbf{C}\)
\(A_{ij} B_{ij}\) \(\operatorname{tr}(\mathbf{A}^{\mathsf T}\mathbf{B})\)

Na última linha, a expressão indicial é mais curta que a direta. Esse é o primeiro caso; haverá outros, em ambas as direções.

O delta de Kronecker

\[\begin{aligned} &\delta_{ij} = \begin{cases} 1, & i = j\\ 0, & i \neq j\end{cases} \qquad \delta_{ij}a_j = a_i \qquad \delta_{ij}\delta_{jk} = \delta_{ik} && \text{(indicial)}\\[4pt] &[\delta_{ij}] = \mathbf{I} \qquad \mathbf{I}\mathbf{a} = \mathbf{a} \qquad \mathbf{I}\mathbf{I} = \mathbf{I} && \text{(direta)} \end{aligned}\]

O delta atua substituindo um índice por outro; é assim que ele aparece na maioria das derivações do curso.

\(\delta_{ii} = \delta_{11} + \delta_{22} + \delta_{33} = 3\). O índice está repetido, portanto somado.

Convenção: bases ortonormais

Salvo menção explícita em contrário, toda base \(\{\mathbf{e}_1,\mathbf{e}_2,\mathbf{e}_3\}\) utilizada neste curso é ortonormal: \[\mathbf{e}_i\cdot\mathbf{e}_j = \delta_{ij}.\]

É essa hipótese que permite obter componentes por projeção — como faremos a seguir, ao escrever \(T_{ij} = \mathbf{e}_i\cdot\mathbf{T}\mathbf{e}_j\). Em mecânica do contínuo ela é adotada quase sempre, e vamos mantê-la ao longo de toda a disciplina.

Origem histórica da notação

  • 1822 — Cauchy descreve o estado de tensão em um ponto por meio de nove quantidades. A álgebra sistemática para manipulá-las ainda não existia.
  • 1916 — Einstein adota a supressão do símbolo de somatório para índices repetidos, uma simplificação de escrita que se tornou padrão.

A notação foi desenvolvida em resposta a problemas concretos da mecânica do contínuo. O ensino, por necessidade, apresenta-a antes dos problemas que a motivaram.

03O símbolo de permutação

O símbolo de permutação

Figura 3

Produto vetorial e determinante

\[\begin{aligned} &(\mathbf{a}\times\mathbf{b})_i = \varepsilon_{ijk}\,a_j b_k && \text{(indicial)}\\[4pt] &\mathbf{a}\times\mathbf{b} && \text{(direta)} \end{aligned}\]

\[\det\mathbf{A} = \varepsilon_{ijk}\,A_{1i}A_{2j}A_{3k} \qquad\Longleftrightarrow\qquad \det[\mathbf{A}]\]

Nestes dois casos a notação direta apenas nomeia a operação: o cálculo efetivo é feito na forma indicial. As duas notações, portanto, não são intercambiáveis.

A identidade \(\varepsilon\)\(\delta\)

\[\varepsilon_{ijk}\,\varepsilon_{imn} = \delta_{jm}\delta_{kn} - \delta_{jn}\delta_{km}\]

Esta identidade converte todo produto de dois símbolos de permutação em deltas — e, portanto, todo produto vetorial duplo em produtos escalares.

Demonstração: os quatro casos

Os quatro casos abaixo esgotam todas as escolhas de \((j,k,m,n)\).

hipótese lado esquerdo lado direito
1 \(j = k\) ou \(m = n\) \(0\) \(0\)
2 \(j \neq k\), \((m,n) = (j,k)\) \(+1\) \(+1\)
3 \(j \neq k\), \((m,n) = (k,j)\) \(-1\) \(-1\)
4 \(j \neq k\), \(m \neq n\), \(\{m,n\} \neq \{j,k\}\) \(0\) \(0\)

Verificamos os casos 1 e 2 no quadro. Os casos 3 e 4 são o item (a) do exercício PS1.1.

Exercício PS1.1

(a) Verificar os casos 3 e 4 da demonstração do Resultado 1.1.

(b) Usando (a), mostrar que \(\varepsilon_{ijk}\varepsilon_{ijn} = 2\delta_{kn}\) e \(\varepsilon_{ijk}\varepsilon_{ijk} = 6\).

(c) Usando o Resultado 1.1, obter \(\mathbf{a}\times(\mathbf{b}\times\mathbf{c}) = \mathbf{b}(\mathbf{a}\cdot\mathbf{c}) - \mathbf{c}(\mathbf{a}\cdot\mathbf{b})\).

np.einsum('ijk,imn->jkmn', eps, eps)

04O que é um tensor

Primeira definição: transformação linear

\(\mathbf{T}\) é um tensor de segunda ordem se associa a cada vetor um vetor e é linear: \[\mathbf{T}(\alpha\mathbf{a} + \beta\mathbf{b}) = \alpha\,\mathbf{T}\mathbf{a} + \beta\,\mathbf{T}\mathbf{b}.\]

Exemplos: o tensor identidade, uma projeção ortogonal, uma rotação. (Lai, Rubin, e Krempl 2010, seç. 2.6)

Segunda definição: função bilinear

\(\mathbf{T}\) é uma função bilinear \(\mathbf{T}: \mathfrak{V}\times\mathfrak{V}\to\mathbb{R}\): associa a cada par ordenado de vetores um número real, linearmente em cada argumento.

Esta definição não faz referência a nenhuma base. A independência de coordenadas é, portanto, consequência imediata da definição, e não um teorema a demonstrar. (Ruderman 2019, seç. 2.3)

Equivalência das duas definições

\[\begin{aligned} &T_{ij} = \mathbf{T}(\mathbf{e}_i,\mathbf{e}_j) = \mathbf{e}_i\cdot(\mathbf{T}\mathbf{e}_j) && \text{(as duas definições dão a mesma matriz)}\\[4pt] &\mathbf{T}(\mathbf{u},\mathbf{v}) = \mathbf{u}\cdot(\mathbf{T}\mathbf{v}) && \text{(relação entre as duas)} \end{aligned}\]

As duas definições produzem o mesmo conjunto de nove componentes. A equivalência é essa igualdade, e não exige demonstração adicional.

Os dois caminhos, lado a lado

Por que o curso usa duas notações

  • A notação direta exibe o objeto matemático, sem referência a base.
  • A notação indicial exibe as componentes em uma base, e é com elas que se calcula.

Nenhuma das duas é dispensável: a direta não fornece um algoritmo de cálculo; a indicial não exibe a independência de coordenadas.

05Componentes

Componentes de um tensor

\[\begin{aligned} &T_{ij} = \mathbf{e}_i\cdot\mathbf{T}\mathbf{e}_j \qquad (\mathbf{T}\mathbf{v})_i = T_{ij}v_j && \text{(indicial)}\\[4pt] &[\mathbf{T}] \ \text{com } \mathbf{T}\mathbf{e}_j \ \text{na } j\text{-ésima coluna} \qquad [\mathbf{T}\mathbf{v}] = [\mathbf{T}][\mathbf{v}] && \text{(matricial)} \end{aligned}\]

Na base ortonormal \(\{\mathbf{e}_i\}\), a componente \(T_{ij}\) resulta de aplicar \(\mathbf{T}\) ao vetor de base \(\mathbf{e}_j\) e projetar o resultado sobre \(\mathbf{e}_i\). (Lai, Rubin, e Krempl 2010, seç. 2.7)

A matriz se preenche uma casa por vez

Quando cada notação é mais econômica

A notação matricial é mais econômica para \((\mathbf{A}\mathbf{B})^{\mathsf T} = \mathbf{B}^{\mathsf T}\mathbf{A}^{\mathsf T}\), que se escreve em uma linha. O mesmo resultado em notação indicial exige acompanhar os índices: \[[(\mathbf{A}\mathbf{B})^{\mathsf T}]_{ij} = (\mathbf{A}\mathbf{B})_{ji} = A_{jk}B_{ki} = (\mathbf{B}^{\mathsf T})_{ik}(\mathbf{A}^{\mathsf T})_{kj}\]

A notação indicial é mais econômica quando os índices contraídos não são adjacentes.

Escreva \(A_{ij}B_{kj}C_{ik}\) em notação matricial. Resposta: \(\operatorname{tr}(\mathbf{A}^{\mathsf T}\mathbf{C}\mathbf{B}^{\mathsf T})\).

06Mudança de base

Tensores ortogonais

\[\begin{aligned} &Q_{im}Q_{jm} = Q_{mi}Q_{mj} = \delta_{ij} && \text{(indicial)}\\[4pt] &\mathbf{Q}\mathbf{Q}^{\mathsf T} = \mathbf{Q}^{\mathsf T}\mathbf{Q} = \mathbf{I} \quad\Longrightarrow\quad \mathbf{Q}^{-1} = \mathbf{Q}^{\mathsf T} && \text{(direta)} \end{aligned}\]

Demonstração de que \(\det\mathbf{Q} = \pm 1\): \(\det(\mathbf{Q}\mathbf{Q}^{\mathsf T}) = (\det\mathbf{Q})^2 = \det\mathbf{I} = 1\).

Um tensor e suas representações

A lei de transformação

Sejam \(\{\mathbf{e}_i\}\) e \(\{\mathbf{e}'_i\}\) duas bases ortonormais, relacionadas pelo tensor ortogonal \(\mathbf{Q}\), com \(\mathbf{e}'_i = Q_{mi}\mathbf{e}_m\), isto é, \(Q_{ij} = \mathbf{e}_i\cdot\mathbf{e}'_j\) (Lai, Rubin, e Krempl 2010, seç. 2.16–2.18).

\[\begin{aligned} &T'_{ij} = Q_{mi}Q_{nj}\,T_{mn} && \text{(indicial)}\\[4pt] &[\mathbf{T}]' = [\mathbf{Q}]^{\mathsf T}[\mathbf{T}][\mathbf{Q}] && \text{(matricial)} \end{aligned}\]

Um tensor é um objeto definido sem referência a base; sua matriz é a representação desse objeto em uma base. A lei de transformação relaciona as representações de um mesmo tensor em bases distintas.

07Fechamento

Síntese

Exercícios propostos (integram a Lista 1, cuja divulgação segue o calendário):

  • PS1.1 — manipulações com \(\varepsilon_{ijk}\) e a identidade \(\varepsilon\)\(\delta\)
  • PS1.2 — unicidade da decomposição \(\mathbf{T} = \mathbf{S} + \mathbf{A}\), com \(\mathbf{S}\) simétrico e \(\mathbf{A}\) antissimétrico

Estudo complementar, não avaliado: Ruderman, problemas 2.1 a 2.6.

Antes do laboratório: instalar o miniforge, conforme instruções nas notas de aula.

Referências

Lai, W. Michael, David Rubin, e Erhard Krempl. 2010. Introduction to Continuum Mechanics. 4º ed. Butterworth-Heinemann.
Ruderman, Michael S. 2019. Fluid Dynamics and Linear Elasticity: A First Course in Continuum Mechanics. Springer Undergraduate Mathematics Series. Springer.