U2.T1 — Descrições do movimento e derivada material

MAE369 — Mecânica e Fenômenos de Transporte · IM/UFRJ · 2026/2

Onde estamos

Figura 1

Hoje, uma partícula. Em U2.T2, a vizinhança dela. A caixa laranja é o roteiro de hoje: cada item nela é definido no seu próprio bloco.

01Duas leituras do mesmo rio

O mesmo rio, dois termômetros

Dois termômetros iguais: um parado, o outro sobre uma partícula do fluido.

As duas leituras

A pergunta da sessão

Como a leitura do medidor fixo se relaciona com o que a partícula sente?

A resposta ocupa uma linha, tem nome, e reaparece em quase todas as equações do resto do curso.

02O movimento e as duas descrições

Rotular partículas num contínuo

Num corpo com finitas partículas, cada uma recebe um número.

Num contínuo há infinitas, e a numeração acaba. O rótulo passa a ser a posição ocupada no instante de referência \(t = 0\). A região que o corpo ocupa nesse instante chama-se configuração de referência; a que ele ocupa no instante \(t\), configuração atual.

A partícula que estava em \(\mathbf X\) chama-se, para sempre, “a partícula \(\mathbf X\)”.

O movimento

\[\begin{aligned} &x_i = x_i(X_1, X_2, X_3, t) && \text{(indicial)}\\[4pt] &\mathbf x = \mathbf x(\mathbf X, t) && \text{(direta)} \end{aligned}\]

\((X_1, X_2, X_3)\) são as coordenadas materiais; \((x_1, x_2, x_3)\), as coordenadas espaciais no instante \(t\).

O rótulo é normalizado por \(\mathbf x(\mathbf X, 0) = \mathbf X\).

Duas hipóteses, ditas uma vez

Suavidade. As funções \(x_i(\mathbf X, t)\) são diferenciáveis tantas vezes quantas cada passo exigir.

Invertibilidade. Para cada \(t\) fixo, o mapa é biunívoco: uma partícula por lugar, um lugar por partícula.

Segue que o movimento pode ser invertido: \(\mathbf X = \mathbf X(\mathbf x, t)\).

As duas descrições de um mesmo campo

Seja \(\Phi\) uma grandeza qualquer definida sobre o corpo: temperatura, densidade, uma componente de velocidade.

\(\hat\Phi(\mathbf X, t)\) — dado o rótulo de uma partícula, devolve o valor para aquela partícula.

\(\Phi(\mathbf x, t)\) — dado um ponto do espaço, devolve o valor para a partícula que ocupa aquele ponto naquele instante.

A ponte entre as duas

\[\begin{aligned} &\hat\Phi(\mathbf X, t) = \Phi\big(x_1(\mathbf X,t),\, x_2(\mathbf X,t),\, x_3(\mathbf X,t),\, t\big) && \text{(indicial)}\\[4pt] &\hat\Phi(\mathbf X, t) = \Phi\big(\mathbf x(\mathbf X, t),\, t\big) && \text{(direta)} \end{aligned}\]

Da esquerda para a direita: descubra onde a partícula está e leia o campo ali.

Da direita para a esquerda, com a inversa: converta espacial em material.

As duas configurações do corpo

Figura 2

Configuração de referência (\(t = 0\)) e configuração atual (\(t\)), com uma só origem.

Velocidade e aceleração de uma partícula

As derivadas do movimento em relação ao tempo, com \(\mathbf X\) fixo:

\[\begin{aligned} &v_i = \left.\frac{\partial x_i}{\partial t}\right|_{\mathbf X}, \qquad a_i = \left.\frac{\partial^2 x_i}{\partial t^2}\right|_{\mathbf X} && \text{(indicial)}\\[4pt] &\mathbf v = \left.\frac{\partial \mathbf x}{\partial t}\right|_{\mathbf X}, \qquad\ \ \, \mathbf a = \left.\frac{\partial^2 \mathbf x}{\partial t^2}\right|_{\mathbf X} && \text{(direta)} \end{aligned}\]

O símbolo \(|_{\mathbf X}\) registra que a derivada segue a mesma partícula.

Origem dos nomes

“Euleriana” para a descrição espacial; “lagrangiana”, ou “de referência”, para a material.

Os nomes são convenções consagradas, e os dois pontos de vista já circulavam na hidrodinâmica do século XVIII.

Eles designam pontos de vista, não autoria.

03A derivada material

O que se quer calcular

O campo é conhecido na descrição espacial: \(\Phi(\mathbf x, t)\).

A partícula não fica num ponto. Ler o campo no ponto atual não basta: no instante seguinte ela está em outro lugar.

A operação que se quer: tomar um campo espacial, seguir uma partícula com ele, derivar em \(t\).

A definição

\[\frac{D\Phi}{Dt} := \left.\frac{\partial \hat\Phi}{\partial t}\right|_{\mathbf X} \qquad \text{(igual nas duas notações)}\] a taxa de variação de \(\Phi\) medida acompanhando a partícula.

A definição é imediata na descrição material. O que falta é uma receita em termos do campo espacial — que é o que se conhece.

Derivação guiada — passos 1 e 2

Passo 1. A descrição material é uma composição: \[\hat\Phi(\mathbf X, t) = \Phi\big(x_1(\mathbf X, t), x_2(\mathbf X, t), x_3(\mathbf X, t), t\big).\]

Passo 2. Derive em \(t\) com \(\mathbf X\) fixo. São quatro caminhos de dependência: \[\left.\frac{\partial \hat\Phi}{\partial t}\right|_{\mathbf X} = \frac{\partial \Phi}{\partial t} + \frac{\partial \Phi}{\partial x_1}\left.\frac{\partial x_1}{\partial t}\right|_{\mathbf X} + \frac{\partial \Phi}{\partial x_2}\left.\frac{\partial x_2}{\partial t}\right|_{\mathbf X} + \frac{\partial \Phi}{\partial x_3}\left.\frac{\partial x_3}{\partial t}\right|_{\mathbf X}\]

Derivação guiada — passos 3 e 4

Passo 3. Os três últimos termos contraem-se pela convenção de Einstein: \[\left.\frac{\partial \hat\Phi}{\partial t}\right|_{\mathbf X} = \frac{\partial \Phi}{\partial t} + \frac{\partial \Phi}{\partial x_j}\left.\frac{\partial x_j}{\partial t}\right|_{\mathbf X}\]

Passo 4. O fator \(\left.\partial x_j/\partial t\right|_{\mathbf X}\) já tem nome: pela Definição 2.3, é \(v_j\).

O resultado

Para todo campo \(\Phi\) na descrição espacial, com movimento suave e invertível:

\[\begin{aligned} &\frac{D\Phi}{Dt} = \frac{\partial \Phi}{\partial t} + v_j\,\frac{\partial \Phi}{\partial x_j} && \text{(indicial)}\\[4pt] &\frac{D\Phi}{Dt} = \partial_t \Phi + \left(\mathbf v\cdot\nabla\right)\Phi && \text{(direta)} \end{aligned}\]

Como ler os dois termos

\(\dfrac{\partial \Phi}{\partial t}\)variação local: o que o medidor da ponte registra. Nula se o campo não depende explicitamente de \(t\).

\(v_j\,\dfrac{\partial \Phi}{\partial x_j}\)variação advectiva: a correção por estar sendo carregado através de uma região onde \(\Phi\) varia de ponto a ponto. Advecção é esse transporte de uma propriedade pelo próprio movimento do meio.

Os dois termos, em figura

A pergunta da sessão está respondida

Como a leitura do medidor fixo se relaciona com o que a partícula sente?

A leitura do medidor é o primeiro termo. O que a partícula sente é a soma dos dois. A diferença entre as duas leituras é a advecção.

O rio da abertura: as duas parcelas

Com \(\mathbf v = U\,\mathbf e_1\) e o campo da abertura:

\[\frac{\partial \theta}{\partial t} = H - A\,kU\cos\left(k(x - Ut)\right), \qquad U\frac{\partial \theta}{\partial x} = GU + A\,kU\cos\left(k(x - Ut)\right)\]

Cada uma oscila, com a mesma amplitude \(A\,kU\) e sinais opostos.

O que a partícula sente

As duas parcelas oscilantes se cancelam, e sobra uma constante:

\[\begin{aligned} &\frac{D\theta}{Dt} = \frac{\partial \theta}{\partial t} + v_j\,\frac{\partial \theta}{\partial x_j} = H + GU && \text{(indicial)}\\[4pt] &\frac{D\theta}{Dt} = \partial_t\theta + \left(\mathbf v\cdot\nabla\right)\theta = H + GU && \text{(direta)} \end{aligned}\]

O caso \(\Phi = \mathbf v\)

Aceleração da partícula que ocupa \(\mathbf x\) no instante \(t\):

\[\begin{aligned} &a_i = \frac{\partial v_i}{\partial t} + v_j\,\frac{\partial v_i}{\partial x_j} && \text{(indicial)}\\[4pt] &\mathbf a = \partial_t \mathbf v + \left(\mathbf v\cdot\nabla\right)\mathbf v && \text{(direta)} \end{aligned}\]

O termo que carrega a dificuldade

\[v_j\,\frac{\partial v_i}{\partial x_j}\]

Este termo é quadrático em \(\mathbf v\): a velocidade aparece nele duas vezes, uma como fator e outra dentro da derivada.

A soma de duas soluções não produz a soma das duas acelerações.

Este é o lado esquerdo, ainda sem forças, da equação de U6.T1.

Duas lacunas, deliberadamente abertas

  1. A regra da cadeia do passo 2 exige diferenciabilidade de \(\Phi\) e do movimento.
  2. A fórmula só é útil se for possível ir de \(\mathbf x\) para \(\mathbf X\) — isto é, usar a inversa do movimento, que diz qual partícula ocupa o ponto \(\mathbf x\) no instante \(t\).

As duas são fechadas em PS1.5, item (a), num caso concreto e com roteiro.

04O campo-exemplo da Unidade 2

O campo

\[v_1 = \alpha\,x_2, \quad v_2 = \beta\,t, \quad v_3 = 0 \qquad \leftrightarrow \qquad \mathbf v = \alpha\,x_2\,\mathbf e_1 + \beta\,t\,\mathbf e_2,\] com \(\alpha > 0\) (inverso de tempo) e \(\beta > 0\) (aceleração), no plano \((x_1, x_2)\) e para \(t \geq 0\).

O primeiro termo faz camadas horizontais deslizarem umas sobre as outras; o segundo empurra todo o material para cima, cada vez mais depressa.

O campo depende explicitamente de \(t\).

O campo, em figura

Figura 3

O mesmo campo em dois instantes; a seta laranja marca o mesmo ponto.

A aceleração, componente a componente

\[a_1 = \underbrace{\frac{\partial v_1}{\partial t}}_{0} + v_1\underbrace{\frac{\partial v_1}{\partial x_1}}_{0} + v_2\underbrace{\frac{\partial v_1}{\partial x_2}}_{\alpha} = \alpha\beta\,t\]

\[a_2 = \underbrace{\frac{\partial v_2}{\partial t}}_{\beta} + v_1\underbrace{\frac{\partial v_2}{\partial x_1}}_{0} + v_2\underbrace{\frac{\partial v_2}{\partial x_2}}_{0} = \beta , \qquad a_3 = 0\]

O mesmo cálculo, na notação direta

\[\partial_t\mathbf v = \beta\,\mathbf e_2 , \qquad \left(\mathbf v\cdot\nabla\right)\mathbf v = \alpha\beta\,t\,\mathbf e_1\]

\[\mathbf a = \alpha\beta\,t\,\mathbf e_1 + \beta\,\mathbf e_2\]

As duas contas coincidem. Escrever nas duas notações é uma verificação barata, que apanha erro de índice.

O medidor fixo e a partícula discordam

\(v_1 = \alpha x_2\) não depende de \(t\): um medidor fixo conclui que nada acelera na direção \(x_1\).

E, no entanto, \(a_1 = \alpha\beta t \neq 0\).

As partículas sobem para camadas onde \(v_1\) é maior. A aceleração está inteiramente no termo advectivo.

O movimento, em forma fechada

\[x_1 = X_1 + \alpha X_2\,t + \tfrac16\alpha\beta\,t^3, \qquad x_2 = X_2 + \tfrac12\beta\,t^2\]

Derivando duas vezes com \(\mathbf X\) fixo: \(a_1 = \alpha\beta t\), \(a_2 = \beta\).

Os mesmos valores, por um caminho independente.

05Linhas de corrente e trajetórias

Duas curvas

Trajetória: a curva percorrida por uma partícula à medida que o tempo corre.

Linha de corrente do instante \(t_0\): a curva tangente, em cada ponto, ao campo de velocidade congelado naquele instante.

Duas equações

\[\begin{aligned} &\frac{dx_i}{dt} = v_i(\mathbf x, t), \qquad\quad\ \ \frac{dx_i}{ds} = v_i(\mathbf x, t_0) && \text{(indicial)}\\[4pt] &\frac{d\mathbf x}{dt} = \mathbf v(\mathbf x, t), \qquad\quad \frac{d\mathbf x}{ds} = \mathbf v(\mathbf x, t_0) && \text{(direta)} \end{aligned}\]

À esquerda o tempo corre. À direita ele está congelado, e \(s\) é um parâmetro auxiliar que não é tempo.

Aqui \(d/dt\) é legítimo

As duas equações usam \(d/dt\) e \(d/ds\), não \(D/Dt\).

A incógnita \(\mathbf x(t)\) é a posição de uma partícula: uma função só de \(t\), não um campo.

Onde não há dependência espacial, não há ambiguidade a resolver.

Quando as duas famílias coincidem

Se o campo de velocidade se fatora como abaixo, com \(f > 0\) e \(\mathbf u\) independente do tempo, então as linhas de corrente coincidem, como curvas, com as trajetórias. Em particular, isso vale sempre que o escoamento é estacionário, isto é, sempre que \(\partial_t\mathbf v = \mathbf 0\).

\[\begin{aligned} &v_i(\mathbf x, t) = f(\mathbf x, t)\,u_i(\mathbf x) && \text{(indicial)}\\[4pt] &\mathbf v(\mathbf x, t) = f(\mathbf x, t)\,\mathbf u(\mathbf x) && \text{(direta)} \end{aligned}\]

O campo-exemplo não satisfaz o critério

No ponto \((x_1, x_2)\) com \(x_2 \neq 0\), o vetor velocidade é \((\alpha x_2,\ \beta t)\).

Em \(t\) pequeno ele é quase horizontal; com \(t\) crescendo ele se inclina.

A direção muda com o tempo. Logo as duas famílias são distintas.

As duas famílias, desenhadas

O erro que a distinção previne

Visualizações de escoamento quase sempre desenham linhas de corrente — elas saem de um único instante do campo.

O material transportado segue trajetórias.

Em escoamento não estacionário, ler uma figura de linhas de corrente como o caminho do material é uma conclusão errada.

Exercício proposto: PS1.5

Dado o campo \(v_1 = U_0(1 + \lambda t)\), \(v_2 = \gamma x_1\), \(v_3 = 0\): obtenha o movimento e sua inversa, a velocidade nas duas descrições, a aceleração por dois caminhos independentes, a derivada material de um campo de temperatura, e as duas famílias de curvas.

Roteiro completo nas notas, em seis itens. O último é numérico.

06Deslocamento e movimento rígido

O campo de deslocamento

\[u_i = x_i - X_i \qquad \leftrightarrow \qquad \mathbf u = \mathbf x - \mathbf X\]

A mesma informação do movimento, escrita como diferença em vez de posição.

Ele assume protagonismo em U2.T2, quando os deslocamentos forem pequenos.

Movimento rígido

Todo movimento que preserva as distâncias entre partículas tem a forma:

\[\begin{aligned} &x_i(t) = c_i(t) + R_{ij}(t)\left[X_j - c_j(0)\right] && \text{(indicial)}\\[4pt] &\mathbf x(t) = \mathbf c(t) + \mathbf R(t)\left[\mathbf X - \mathbf c(0)\right] && \text{(direta)} \end{aligned}\]

Tudo o que esta fórmula exige já foi demonstrado

\(\mathbf R(t)\) é ortogonal próprio — uma rotação, com \(\det\mathbf R = +1\) — e \(\mathbf R(0) = \mathbf I\).

\(\mathbf Q\mathbf Q^{\mathsf T} = \mathbf I\), preservação do produto escalar, \(\det\mathbf Q = \pm 1\) — tudo estabelecido em U1.T1. O sinal \(+1\) sai de \(\mathbf R(0) = \mathbf I\) e da continuidade em \(t\).

O movimento rígido, em figura

Pergunta para a próxima sessão

Que campo de velocidade um movimento rígido gera, e o que distingue esse campo do campo-exemplo desta sessão?

07Fecho

O que ficou

Duas descrições. Material segue a partícula; espacial fica no ponto. A ponte é a composição com o movimento.

Uma derivada. \(D\Phi/Dt = \partial_t\Phi + (\mathbf v\cdot\nabla)\Phi\) — variação local mais advecção.

Duas famílias de curvas. Trajetórias e linhas de corrente, que só coincidem sob o critério do Resultado 2.3.

O que vem em U2.T2

Hoje seguimos uma partícula. A próxima sessão olha a vizinhança dela.

Dessa mudança de foco saem: a resposta à pergunta do movimento rígido, a medida quantitativa da invertibilidade, e o vetor dual prometido em U1.T2, agora com significado cinemático.

Referências

Lai, W. Michael, David Rubin, e Erhard Krempl. 2010. Introduction to Continuum Mechanics. 4º ed. Butterworth-Heinemann.
Ruderman, Michael S. 2019. Fluid Dynamics and Linear Elasticity: A First Course in Continuum Mechanics. Springer Undergraduate Mathematics Series. Springer.